Salve traças,
Terminei, enfim, a edição 7 de meu zine! Vamos ler um aperitivo? A versão completa está no final do post.
Boa leitura!
Estante Velha
Números 7 - Glossário
Números 7 - Caixotes de fadas
Salve, traças,
Taubaté, ainda sinto?
Passeio pelo seu corpo recordando
as antigas curvas, os velhos pontos de prazer, os gozos e os excessos.
[Há rancor aqui]
Tudo foi demasiado. Foi?
Pode o olhar reviver o que
morrera? Pode a memória reviver o que ocorrera?
Destituído de toda a
racionalização bêbada, vislumbro que tentei imputar a você algo que é só meu.
Ao caminhar, percebo no jogo infantil, na mendicância dos extraviados da velha rodoviária, na ânsia por dinheiro dos jovens mal empregados, na beleza plácida da árvore que permanece no mesmo local, que o morto aqui sou eu.
Eu morri para você e, austera e calamitosamente
permanente, prosseguiu...como o faz há séculos.
[Há ingenuidade aqui]
Ainda sinto a sua falta, mesmo em
ti. O casal que formamos inexiste e não há nostalgia que faça com que, uma vez mais, compartilhemos nosso calor e esperança.
Algumas árvores estão floridas, outras desfolhadas, contudo estão todas em ti plantadas. E eu? Sem raiz, assombro errático velhas lembranças, ruas, esquinas, paixões, pessoas, amizades.
[Há mudez aqui]
Posso ter morrido em você, mas
você não morreu em mim. Há uma linha que a cruza, trilhos arruinados que
prosseguem pontualmente com um sonho enferrujado. Há uma linha que me cruza que
prossegue limitando um passado mofado, você.
Ainda sinto a sua falta e meu
orgulho me impedia de perceber que o degredo só fere o degredado.
[Há verdade aqui?]
Taubaté, 20/07/24.
Números 6 [COMPLETO]- O divino cotidiano
Salve, traças,
Enfim a parte final de Números 6 - O divino cotidiano (leia aqui as outras edições).
Aproveito esta última introdução para agradecer ao amigo Ito, a quem dedico a história.
Download do zine: Números 6 - O divino cotidiano.
Crédito da imagem: Pablo Auladell - O paraíso perdido
Aproveito esta última introdução para agradecer ao amigo Ito, a quem dedico a história.
Download do zine: Números 6 - O divino cotidiano.
Números 6 - A peregrinação
Salve, traças,
Esta é a segunda parte da história do meu sexto fanzine Números (leia aqui as outras edições). Relendo-a para publicar aqui, percebo que talvez apresente um dos personagens mais desprezíveis que já criei. Enfim, leiam e opinem. Outra coisa, por enquanto o título parece ser "Revelações por 200 reais", mas estou aceitando sugestões. Sei que o conto é longo, mas gosto de pensar que contém a menor quantidade de letras possível.
Se você não leu a primeira parte, leia aqui.
A peregrinação
Se você não leu a primeira parte, leia aqui.
IV
Será que ela será aquilo tudo ao
vivo? Fotos costumam enganar o mais atento observador. Mesmo o mais experiente
pode cair no truque da perspectiva alta. Do foco no rosto, do apelo ao bundão /
peitão que desvia a atenção do barrigão. Faria diferença? Em um sentido prático?
Não. De todo modo, não lhe convinha imaginar que ela usasse de truques tão tolos. Ao menos não novamente. Ainda preciso
entender a tentativa falha de manipulação. Por que ela não foi direto ao
assunto? Talvez um apego desnecessário ao papel destinado às mulheres. Porra,
veja bem, eu querendo que alguém seja mais direto. Eu, o senhor verborragia. De qualquer forma, estou pagando para ver, não
há retorno. – Isso, dentre outros pensamentos, era o que passava por sua cabeça
quando disse ao motorista:
- Pode me deixar aqui mesmo. – Estava a um quarteirão de
distância do bar onde marcara o encontro. A ideia era ter tempo para caminhar, elaborar
melhor algumas linhas de pensamento e de ação. Isso, é claro, também gerava o
efeito colateral positivo de deixar a garrafa de vinho que bebera tomar seu
corpo; calmamente.
- São 22 reais.
- Só? Esta noite está começando bem!
- Tem trocado, não?
- Desculpa, só estou com isso.
O olhar do motorista, mesmo pelo
retrovisor, transmitia tanta raiva que assustaria o mais armado dos covardes.
- Pode ficar com o troco amigo, no momento só estou com
notas de 200.
Silêncio.
Uma sirene soa distante.
Silêncio.
Uma nova música começa no rádio.
Tentando amenizar a tensão, afinal não tinha de continuar
ouvindo o ruído do motor do táxi, soltou:
- Depois acertamos, sem problemas.
- O que você disse?
- Pode ficar com o
troco, na próxima você me dá desconto.
- Ficar com o seu dinheiro?
- Sim, descontamos em uma outra viagem, o que acha?
- Na próxima? Tá doidão? Tá me tirando? Não preciso de
esmola de playboy. “Só estou com notas de duzentos”, sério? Deixar o troco...É
cada um que me aparece. Vou arranjar o seu troco.
- Calma, foi só uma sugestão...
- Você vai ficar onde? Quer saber, não importa. Espera
aqui. Vou trocar essa merda de dinheiro ali na loja de conveniência e já trago
de volta.
- Ok, eu acho... Obrigado? – Mas quando o respondeu o sorriso mental era tão evidente que o lábio se contorceu em direção às
orelhas. Involuntariamente, é claro.
Com certeza, voltará com o meu troco. E o sorriso veio fácil, novamente,
aos lábios. Preciso me conter. De todo modo, tenho de tentar entender que, como
um trabalhador sub-remunerado, é compreensível que um motorista se aproveite de
pequenos estratagemas para complementar sua renda. Não há um fator pessoal nessa atitude. Impelido pelas condições sociais, o sujeito age de maneira a sobreviver
em um ambiente que lhe é opressor. E ele está certo, é evidente para qualquer
um que pense um pouco mais. Não? Só não vejo a necessidade de toda aquela
atuação.
Enquanto o táxi se afastava, ele caminhou em direção à
bela igreja de inspiração barroca que se avizinhava do ponto onde ocorreria o
encontro. As torres, apontando o céu, mostravam a mais bela devoção humana: o
apego ao intangível, a necessidade de narrar o mundo, explicando-o. O maior dos
dons: criar a própria história. Riu do fato de ter usado o termo “dom”. Um erro
bobo, mas algumas higienes são necessárias com relação ao uso da linguagem.
Sim, nós nos criamos, uma vez que erigimos no solo de nossa mente o que significa “ser”. Dar sentido à vida, eis a
tarefa hercúlea que esta bela catedral representa! Sentia-se livre ao comungar
em pensamentos com aqueles autores que tanto admirava. Existencialismo; em sua
boca a palavra era um adjetivo.
Olhando para o céu, entretanto, esquecera-se do asfalto.
Quando percebeu a mulher, já estava quase passando por ela. Sentada sobre os
degraus da casa de adoração; junto com o
companheiro canino, aguardava o auxílio divino: a providência. Bem, hoje serei
eu o servo de Teu Deus. Tais pensamentos lhe faziam cócegas mentais...tinha de
segurar a gargalhada. Tirou, então, da carteira duas notas de duzentos e,
abaixando-se, entregou-as com a alegria de quem participa da melhoria do tecido
social.
V
Tinha um rosto a prova de qualquer vaidade. Herdara do pai
o táxi e o contrato de aluguel do apartamento no Edom, bairro razoavelmente bem
frequentado, lar da classe média que interpreta o paraíso com fantasias de excesso
e riqueza. Apaixonado pela derrota, tinha no olhar dos fracassados a companhia
para as noites rodando. Roubar de um playboy? Como se houvesse algo que ele
tenha e eu não possa ter. Viu naqueles olhos condescendência, pena. De mim?
Não...ele teria seu troco. Eu não sou como aqueles colegas de infância que
filha-da-putearam à deriva pela vida, esbanjando sorrisos por fazerem dinheiro
em cima de otários de nascença e criação. Felicitando um ao outro pela melhor
maneira de ganhar um trocado arriscando a existência eterna. Alguns levavam a
vida como um vício, outros como um hábito, mas eu compreendi: a existência é a
chance concedida por Deus para nos mantermos limpos; uma provação, um desafio
de força de vontade; uma maratona, não uma corrida com pódio de chegada e beijo
de namorada . O livre-arbítrio é dádiva do “não”. Essa pequena palavra, mas tão
grande característica, nos diferencia dos animais e daqueles que têm como
“humano” apenas a nomenclatura, não a qualidade. Negar o pecado que nos circunda
diariamente e, inabalável, caminhar pelo deserto, pelas brasas do prazer e da
iniquidade rumo ao trono do altíssimo, eis o desafio da religião racional.
Não devolver o troco? É isso que ele espera de mim.
Olha-me como superior somente por receber mais dinheiro mensalmente. Como se esperasse que pedido de desculpa por existir, por ser mobília em sua vida. Oras, só porque tem pai, mãe...tios
e tias e tantos outros pontos de uma rede social que se espalha pelos
corredores do poder da cidade. Uma vida que transcorre de “sim” em “sim”. Herdou
um sobrenome que o antecede nas interações sociais, e, quando isso não ocorre,
utiliza a carteira cheia de notas de duzentos reais como um sorriso simpático
para o mundo: posso compartilhar isso com você, quer? Um pessoa que só compreende
o “sim”, como poderia se aproximar de Deus?
- Não. Não! Ele terá o troco, eu não uso o linguajar da miséria, seu filha da puta.
VI
E por que você não socializa no
próprio bar? Não é mais fácil arranjar alguém nesse ambiente? Muitas de suas
amigas já perguntaram isso. Como se tivessem alguma sabedoria para
compartilhar. Acham que, depois de terem se amarrado em um pau pelo resto da
vida, têm as respostas para todo e qualquer relacionamento. Como se o objetivo
de todas nós fosse ter uma foda garantida, depois uma criança para amar e
cuidar e cuidar e cuidar, e depois uma pica meia bomba para sentar uma vez por
mês; com sorte. Sim, amiga, estou esperando pela minha alma gêmea em um bar, em
uma sexta de chuva no final do mês. Toda trabalhada no uísque, não se esqueça!
E ao recordar-se do álcool que lhe toma as veias, ajeita a altura do vestido e
a janela de visão oferecida por seu decote. Escolher o decote ideal é uma arte desprezada.
Deve-se mostrar somente o suficiente para gerar o anseio. Não é muito. Enfim, elas
nunca entenderiam, afinal nunca frequentaram esse ambiente o suficiente para
saberem que o homem que está aqui não é o meu tipo. Meu prazer está em homens
na puberdade dos sentimentos. Virgens da malandragem. Incrivelmente cientes da
sorte que é estar com alguém como eu.
Isso não é um “eu” versus “elas”, lembra-se
a tempo de finalizar uma discussão consigo própria. Álcool: beba e ganhe
gratuitamente um companheiro para monólogos existenciais – eis uma ótima
propaganda! Feliz com suas pérolas, senta-se no boteco onde marcara o encontro.
Chegou antes, pois necessita quebrar o estereótipo que criara de mulher
certinha. É a hora de transformar o cérebro álcool alterado em um pântano de
desejo e uísque cowboy.
Sim, outros tentaram a sorte. O
batom se esvaía na boca dos copos enquanto outros balançavam a cabeça, sorriam,
pagavam drinques...Tudo para tentar uma aproximação. Obrigado, mas o objetivo é
um só. Embora esses senhores a divertissem, não perderia uma noite com eles.
Vira-o de longe. Vinha da direção da basílica de santo António Maria Gianelli. Caminhava lentamente e olhando ao redor. Ela gostou...estaria pensando no que dizer? Em como começar a conversa? Seria ela o vórtice dos pensamentos daquele completo estranho? Foi quando um cachorro grudou na perna dele com os dentes. Com chutes, ele afastou o animal. Com chutes, garantiu a permanência do bicho em estado de repouso; final. Uma senhora de rua foi então na direção do “boy da noite”. Por quê? Grita a velha, caindo no chão e tentando resgatar o animal da morte. Os chutes prosseguem. Parecem ter, à distância, um alvo duplo. Acertam e acertam. Fortes, decididos e bem sucedidos. O que não deveria ser uma bola; vira. O que não deveria explodir em vermelho; explode. Quem não deveria chorar; chora. Aquele que não deveria ir embora; vai? Vai para onde? Como assim? Ainda estou aqui. Aqui. Aqui, porra!
VII
Compartilhar com o próximo. Que piada de mal gosto. Como
se fosse possível termos algo em comum para partilhar. Como se fosse possível
ceder algo que interessasse a alguém cuja grande aspiração na vida é permanecer;
ser mais um de tantos da espécie que se espalha desenfreadamente. Em que eu
ajudaria algo como ela? Em que isso me seria proveitoso? Não preciso dela. Não?
Não! Olhe para esse rascunho de pessoa: prostrada nas escadarias da igreja,
fantasiada de mendiga, acompanhada por um cachorro que consegue feder mais que
a dona. Não precisa de ajuda... Não quer aceitar meu dinheiro? Agora não posso
nem fazer-lhe uma boa ação? Olha-me nos olhos e diz não precisar de minha
ajuda? Desculpe-me, tomara que morra, velha. Você e seu animal. O surrei até a
morte, sim. No entanto, fora ele quem primeiro me atacou. E eu pedi desculpa;
ainda. Gostei do que fiz? Não. Tinha escolha? Não.
A velha não aceitar minha ajuda fora, sem dúvida, a
atitude mais estúpida daquela vida. No entanto, analisando com um pouco mais de
frieza, ao menos ela assumira a posição de inferior com orgulho, mantendo assim a
humanidade; ou melhor, ganhando assim humanidade. Há beleza nisso! Sim, mesmo
esse projeto de gente teve a honradez de recusar as facilidades da vida na rua.
Tal qual o fio de Ariadne salvara a bela jovem da
depravação provinda de um ser inferior, o minotauro, a atitude dessa velha
revela um caminho. Não posso aceitar uma posição subserviente em todas minhas
interações sociais. Mesmo ela, pode ensinar-me algo. É meu dever ensinar pelo
exemplo, somente assim a evolução social será factível. Foi então que, tentando
desculpar-se por ter matado o cão, foi afastado com gritos histéricos. Como
esperado, ela não compreendeu. Por quê? Por quê? Oras, só há uma resposta e
todos sabem, não? Porque eu posso, porque eu quis.
Estava decidido, tomaria uma atitude. Não posso permitir o
caos total. Tome-se o exemplo do taxista. Se lhe perdoasse o roubo, o que seria
de todos nós? Não era questão de se apegar ao troco como se precisasse. Nunca. Mas
como poderia aceitar tal vagabundagem explícita? Seria contrariar todas as
regras que baseiam o contrato social. Aquele homenzinho de merda lembrando-se
de mim e sorrindo...Não! Feliz por se dar bem. Alegre por enganar mais um playboy sem noção. Sei que ele pensou isso. Eu
sei. Dá para acreditar? Como se não fosse por minha causa que ele sustenta seja
lá a vidinha que tem: os filhos, a mulher permanentemente grávida, o pai e mãe
doentes. Dá para aceitar isso não... Esse tipo de gente acha que tenho algum
tipo de obrigação com eles. Têm de entender o valor da bondade! Perceber a
virtude do doar, o desprendimento solidário de deliberadamente entregar aquilo
de que não preciso para que tenham uma chance. Porra! Esse puto
está estragando a minha noite! Não vou conseguir conversar com a gostosa pensando
nessa afronta. A noite promete estranhas epifanias. – falava para os ares
enquanto a sangria de um sorriso escorria por seu rosto deformado pela raiva.
Ou respondo à altura ou em breve não terei uma sociedade
de que me orgulhar. Um local seguro onde possa dormir. Vão roubar tudo? Não
enquanto eu puder impedir. Aquele motorista sabia que fazia algo errado, mas,
oras, se ninguém fala nada, por que não continuar fazendo, não é? Sem crime,
sem pecado. Por que não continuar ganhando, troco por troco? Roubando, noite
após noite. Hoje não! Eis o livre arbítrio, a capacidade de dizer: “basta!”
Eufórico ele sinalizou para que um táxi parasse.
- Que táxi, senhor?
Após um momento de dúvida
inesperada, ele responde.
- Pode seguir adiante, agora!
A loucura é areia movediça em noites como essa.
VIII
Tentava entender...Sentada no local marcado ela o viu descer do táxi. Observou quando,
pensativamente belo, contemplou os céus. Lá estava o alimento de hoje, caminhando
em sua direção. Prestava homenagem com o olhar à bela igreja. Ela nem era católica,
porém gostou de notar algo não superficial nele. Era grande coisa? Não. Mas em uma
noite chuvosa como aquela, todos têm algo a oferecer. Começava a se preparar
para recebê-lo com seu sorriso treinado quando o sujeito ajoelhou-se próximo a
senhora abandonada à porta da igreja. Doava algo? Que belezinha, será que metia
bem? Esses idealistas costumam ter medo de lambuzar a boca em uma boa boquete.
E se tivesse nojo de suar? É uma hipótese. Não teve tempo de prosseguir os
devaneios a respeito dos caminhos futuros e possíveis. Foi trazida de volta ao
presente quando os chutes raivosos dele
lançavam o corpo do cachorro e da mendiga cada vez mais longe. Cada vez era
mais dolorido de observar. Por quê? Era esse o mesmo homem com quem conversara
no início da noite? Talvez estivesse se confundindo. Com certeza estava,
afinal, aquele desconhecido acabara de pedir um táxi, ou seja, aquele merda não
era o par escolhido.
- Mais um uísque, por favor – pediu,
já tranquila por ter conseguido controlar o desenrolar descontrolado de sua
mente alcoolizada.
Assim que o garçom lhe entregou o
copo, sentiu um olhar distante pousando sobre si. De dentro de um táxi, ele a
olhava. O semáforo o prendera por instantes frente a frente com ela. Não havia
dúvida, era ele; partindo. Ainda teve a audácia de acenar e mandar-lhe um
beijo.
Mandou-lhe um beijo e foi-se com a
liberação verde da sinaleira. Foi-se...
Como assim? Quando o uísque chegou
as suas mãos, encarou-o como quem vislumbra no leito de morte o pai ausente.
Responda-me, por quê? E a resposta veio. Por caminhos tortuosos a verdade se
revelou. Uma trilha indicada por copos vazios: a do impulso. Seu batom não mais
se esvairia em repetidos copos. Nesse momento, seguir aquele olhar parecia o
ato racional a ser tomado. Como
ousara...Ela, abandonada?
Porra, olha o exagero. Pensa mais um
pouco. Estava ali por si própria, sim. Gostava de fantasiar ser uma vampira,
alimentando-se das emoções alheias. Ou melhor, da emoção: a esperança. Por que
precisa daquele merdinha? Não precisa. Contudo, tudo isso não é certo. Havia
contas a serem acertadas. Pela mendiga velha, pelo cachorro morto, acima de
tudo, por mim.
Todas as imagens são de autoria de Lourenço Mutarelli e pertencem ao álbum Mundo pet
Você pode encontrar esse álbum aqui.
Números 6 - O chamado
Salve, traças,
Estou começando a publicação do fanzine Números em sua edição 6. O conto ficou um pouco longo, então, antes de publicar o arquivo completo, publicarei a história em três posts por aqui.
Ainda não tenho o título dessa história, AJUDEM-ME!.
O chamado
I
Futuro é um artigo de luxo. Ter um “a longo prazo” é um
puta privilégio de que ela não desfruta. Com fome, desejaria comer. Cansada,
pensaria em despencar na cama. Com tesão e solitária, o plano é sair para
meter. Hoje. Agora.

Certas noites precisam do amanhecer, enquanto outras anseiam pela madrugada. Ela só queria se sentir querida, desejada, ser o plano de alguém...Que um ser, em meio àquele deserto, a tivesse como norte. Que a esperança dessa pessoa fosse vê-la novamente. Não confunda a necessidade de desejo alheio com carência. O objetivo dela era tão somente se alimentar da esperança contida na semente do desejo.
Acariciava a tela do celular, dançando com os dedos em busca daquelas pessoas que eram belas, mas no limite da feiura. Ele ou ela tinha de ter um ar de profundidade e inteligência, no entanto não poderia ser distante o suficiente da sociedade para não se importar com a aparência. Sim, é óbvio que o visual é importante. Em um cardápio, escolhemos o alimento pela imagem que mais agrada. Para abrir o apetite, escutava jazz e tomava uísque.
Uma vez localizado o alvo e estabelecida a certeza do
interesse mútuo, declarava-se solitária e querendo conhecer alguém. Veja bem,
para se saciar, precisava criar o desejo verdadeiro, aquele que não acabava com
um jato de porra. Somente assim, aquele brilho esperançoso surgiria no olhar no
momento da despedida. Dizer “estou afim de meter” certamente atraíria
companhia, mas não era isso que buscava.
Encontrou. Hoje seria um “ele”. Cabelo black power, óculos
amplos, descrição engraçadinha e sagaz no perfil. Era um pouco mais novo que o
ideal, mas serviria. O papo foi direto. Não gosto de conversar on-line, prefiro
contato humano, por que não vamos a um bar? Ela não disse nada disso, ele o fez.
Conhecia as linhas de força que comandavam a mente masculina média. À mulher,
rezavam os códigos, cabia o papel de apenas insinuar, deveria deixar para o
macho as proposições, as escolhas, os convites. Não se importava, era mais
prazeroso fazê-lo colocar em palavras aquilo que ela previamente desejava.
Marcaram o horário e o local. Era hora de banhar-se.
II
A água escorria pelo alto da montanha. Um homem com a loucura do deserto portava um cajado que brandia aos céus com todo o ódio que só o amor fanático pode proporcionar. Relâmpagos cortavam a pele formando irreconhecíveis rostos. Os cabelos longos ditavam os caminhos para a torrente. Seu rosto convidava ao temor. Sua boca vociferava colericamente a verdade; cega. Abaixo da montanha, várias pessoas representadas de costas observavam consternadas a postura vilanesca do velho. O sabão tampava a mulher ajoelhada que se recusava a pagar a devida atenção ao profeta. O calor gerado pela água e pela fricção do sabão trazia uma tonalidade vermelho-sangue à cena. A tinta que rasgara a pele cobria a totalidade das costas. O movimento do corpo, recriava vida na face do senil legislador sacro: o sermão renasce no calor do sangue que se prepara para a vida noturna da capital.
Algumas leis são eternas, – na escuridão do banho quente, ele pensava - há verdades além daquilo que nossa visão entrega. A revelação não pode se dar pelos sentidos calcificados pela podridão do cotidiano. A bucha raspava a pele em um movimento obsessivo; amoroso. O banheiro é o melhor lugar da casa. Banhar-se em silêncio no ambiente sem luz, limpar o corpo e a mente, clarear o pensamento.
Repetia esse processo todas as
noites antes de começar a trabalhar. Apesar de tudo, ainda precisava de
dinheiro para alimentação. Levava uma vida simples e regrada, pois desejava
interagir minimamente com o mundo. Sob a luz bruxuleante das velas secava seu
corpo. Observava sua figura no espelho de dois metros de altura por um de
largura que mantinha em seu quarto. Gostava de admirar seus músculos, se
quisesse poderia colocá-los em ação e espremer qualquer um daqueles com quem
tinha de conviver. A imensa tatuagem de Moisés no monte Sinai que cobre
completamente suas costas o relembra de seu caminho. Traz com orgulho, na ruína
do corpo, a marca da revelação.
Veste-se sobriamente, toma um copo de vinho acompanhado por pão e segue para o trabalho. Mais uma noite arrastando perdidos pela carne do desejo que é a madrugada na capital.
III
Segundo meu psicólogo, eu não
deveria brigar com as verdades que não me agradam, pois bem, sou verborrágico e
isso não é um defeito, de modo algum! A verborragia é uma das minhas
características preferidas. Vejo-a como um índice de superioridade intelectual,
afinal, por meio dela desenvolvi a capacidade de articular por meio da
linguagem verbal significados que normalmente seriam inatingíveis para o
pensamento confortável ao chão do asfalto. Eu poderia atravessar o deserto
analisando meu discurso. Dito isso, confesso que há verdade no que dizia minha
ex-empregada: “Cê só sabe plantar enganos na nossa cabeça”. Sim, ela dizia
rindo. Sim, ainda assim, é uma pérola de sabedoria. Sim, ela falava isso após metermos
novamente pela última vez. Sim, ela errou ao interpretar minha necessidade de
expressão clara, e talvez excessiva, como um sinal de afeto que atravessasse
nossas diferenças e nos unisse em algo mais do que um par de pessoas querendo
gozar. Acredito que atualmente ela perceba o erro em se declarar para um homem
/ pênis cujos desejos se resumiam a uma foda garantida durante o prólogo das
noites de sexta.
Do que falamos? Oras, este é o exercício de sinceridade
requisitado pelo psicólogo. Embate com a verdade. Trabalho terapêutico de confrontação
com o “eu”. Em outras palavras, uma piada bem elaborada por partes de mim que
nem mesmo conheço. Labirintos de pistas falsas para um ser único que existe
apenas nas planilhas de imposto renda de técnicos contábeis. E lá quero eu
saber quem EU sou? Respira. Respira. Volte! Devo controlar o fervor por criar
narrativas / justificativas.
Esta é uma tentativa de traçar algoritmos de
possibilidades, mapear minhas linha de ação com aquele sorriso envolto em desejoso batom,
flagrante esperança, fragrante tesão. Como é linda! Não há problema nenhum em
beleza e ingenuidade andarem juntas, ainda a valorizo, apesar dela ter tentando
me manipular feito uma criança de 22 anos. O fato de minha idade ser 22 anos enfraquece
o argumento? Crio piadas para o meu próprio riso contido. Ela tentou usar-me e
pensou que eu não perceberia. Um gesto lindo que despertou ainda mais o desejo.
Como devo comportar-me com ela? Sigo com o papel a mim
atribuído? Explicito o quanto juvenil e óbvia ela fora? Ela compreenderia?
Entenderia minha demonstração de intelecto superior a média como uma tentativa
de agradá-la ou como um ataque?
In vino veritas. Não deveria fazer isso, porém tudo
aconteceu rápido demais e não terei muito tempo para me preparar. Talvez seja
positivo. Sinto que esta será uma noite de revelações!
2 - Luis Royo - https://www.luisroyo.com/en/
3 - Susano Correia - https://www.instagram.com/susanocorreia/?hl=en
À deriva na ressaca de um mundo acabado, do qual só resta nostalgia
I - Cigarros
- Pode o destino ser uma punição? Sim, nós envelhecemos. Mas pense, em algum momento passou pela sua cabeça que não aconteceria? Nunca pensou na morte?
II - Destinos
Fantoche
- Meu cabelo já está lindo pai, vai se
arrumar enquanto me maquio. - Disse a
filha, removendo-o de um redemoinho que talvez o afogasse em um
caminho sem retorno.
















